Saber RECEBER para saber DAR bem

UMA DAS MAIORES CRISES DOS CRISTÃOS ATUAIS NÃO É SOBRE O DAR SENÃO NO TOCANTE AO RECEBER

Respeito à Graça. Respeito ao Ministério. Respeito ao Dar. Respeito ao Agradecer…

Sobre a Graça:

A principal sentença novotestamentária sobre a Graça está em Mateus 10. 5-8, que assim diz: “Jesus enviou estes doze, e lhes ordenou, dizendo: Não ireis pelo caminho dos gentios, nem entrareis em cidade de samaritanos; mas ide antes às ovelhas perdidas da casa de Israel; e, indo, pregai, dizendo: É chegado o reino dos céus. Curai os enfermos, limpai os leprosos, ressuscitai os mortos, expulsai os demônios; de graça recebestes, de graça dai” [Mateus 10:5-8].

A ideia na essência de tal expressão final de boca de Jesus a seus discípulos judeus é: DEVOLVAM GRAÇA GENEROSAMENTE ÀQUELES DOS QUAIS VOCÊS RECEBERAM DE GRAÇA.

Quão gracioso é o nosso Senhor, que “veio para o que era seu, e os seus não o receberam, mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome” [João 1.11,12], e assim mesmo logo envia a seus discípulos a dar de graça o recebido, aos próprios que não o recebera!

Claro que os judeus não tinham nada de graça a dar, senão somente o nosso Salvador, mas há um legado que vem dos judeus que Jesus sempre respeitou, e considerou dever dos novos salvos sempre estar dispostos a dar da graça de Deus aos que são de sua mesma raça.

Que todos temos recebido algo de outros, de graça, é inegável; a questão é como recebemos. Quando alguém ora por você por um milagre e de imediato exalta sua igreja, seu ministério ou a si mesmo, certamente a coisa dada não foi de graça. De você depende ficar com ela ou devolve-la logo. Receber a graça em vão é ter recebido pensando no futuro lucro que teria com ela (2 Co 6. 1).

A premissa central para o sabermos dar de graça está em reconhecer que o que recebemos de nossos pais biológicos foi tudo corruptível, e que para adequar-nos a receber de Deus de graça a Sua Graça, Ele teve de nos resgatar daquela vã maneira de viver (1 Pd 3. 18, 19). E esta nova herança incorruptível, se sintetiza nas palavras de Mateus como 1. Pregar o Evangelho da Graça de Deus. 2. Curar os enfermos. 3. Limpar os sujos. 4. Dar vida aos mortos em delitos e pecados, e; 5. Libertar às pessoas de suas amarras psicológicas e espirituais. Se não temos este mínimo para dar, sinal que não recebemos ainda ou não soubemos receber ou recebemos e nos apropriamos do recebido e agora buscaremos lucrar com isso como de nossa autoria, poder ou generosidade.

Sobre o Ministério:

No Novo Testamento existe um único Ministério na Igreja, como a escola da onde sairão ministérios diversos consequentes e concomitantes com ele: O Ministério do Espírito, que tem ao Espírito Santo nos crentes e ao Filho à Direita do Pai intercedendo por nós, e nos cuidando desde lá constantemente.

A revelação divina nas Escrituras Sagradas denomina ao catolicismo de “ministério” (Ap. 2. 19: aqui serviço no original é “ministério”, e Tiatira corresponde a essa igreja).

Já Sardes, tipificando a Igreja Protestante, foi exortada com estas palavras: “Lembra-te, pois, do que tens recebido e ouvido, e guarda-o, e arrepende-te. E, se não vigiares, virei sobre ti como um ladrão, e não saberás a que hora sobre ti virei” [Apocalipse 3.3]. Queira-se ou não reconhecer, o Protestantismo algo recebeu do Catolicismo; algo bom, e tudo bom da parte do Deus da Graça.

A reação “protestante” foi tão grande e até violenta contra as obras de Tiatira, que acabou por ignora-las e assim esquecer-se de pratica-las na fé. Enquanto o catolicismo tinha muitas obras que foram em aumento, o protestantismo teve muitas obras falsas, com nomes de vida, estando elas mortas. Na profecia aqui os protestantes que não se contaminaram com as coisas erradas do catolicismo eram poucas, assim mesmo o Dono e Senhor da Igreja os encoraja a vencer.  Certo deslumbre com a verdade levou a muitos evangélicos a jogar no lixeiro tudo quanto não presta, e no meio, jogar fora algumas pérolas. O orgulho espiritual sempre foi o responsável de que certos servos de Deus joguem no lixo as coisas boas que receberam doutros, e ainda se gabem de sua obtenção e detenção.

Para que houvesse um discernimento claro e adequado do que tenhamos recebido de graça como digno de ser mantido, agradecidos humildes e generosos, precisamos compreender cabalmente o que é a GRAÇA DE DEUS.  Uma tradição não é a graça de Deus. Uma profecia preditiva ou promesseira para a gente sobre um possível ministério esplendoroso também não a graça de Deus. Um aprendizado recebido de graça tampouco tem porque ser Graça de Deus. Para ser a GRAÇA de Deus, deve ter sido absolutamente dentro do mistério da Administração da Graça (Ef 3. 1-12) que é o desenrolar dos dois mistérios revelados a Paulo, que são, Cristo dentro do salvo permanentemente, e a Igreja de Jesus. Nenhum ministério que nascera da Graça, mas logo caiu dela por se justificar (Gl 5. 4), embora recebido da Graça permanece fluindo da Graça, por tanto, o reconhecer a Graça de o Senhor nos dar um ministério deve ser o primeiro requisito para saber mantê-lo e desenvolve-lo.

Respeito ao Dar:

Existe uma síndrome mui “protestante” que aparentemente fala da Graça, mas o que realmente ela fala é de dívidas e cobranças de um deus como dos pagãos, cruel, lacerante exigente e moralista, sedento de oferta de sangue.

As deficiências em compreender o que se recebe são muito grandes na maioria dos crentes novotestamentarios da atualidade. A maioria toma a salvação como um mérito. Outros a tomam como o ganho de um sorteio. Alguns a consideram um presente imerecido baixo condições para seu mantimento.

Talvez pertença mais aos traumas deixados por anos e séculos de opressão constantinizante do Catolicismo, ou talvez à moralidade inerente em todo ser humano caído, que inconsciente caminham o caminho de Caim.

O certo é que temos mais um evangelho de nós darmos que de receber de graça e dar de graça. Sou eu o responsável. Sou eu quem tem. Sou eu quem deve dar. Sou eu que posso dar. Sou eu quem tem “o melhor” pra dar. Sou eu que se não for, as almas se perderão. Sou eu que decido a salvação dos que mais amo. Sou eu que escandalizo (o outro não tem nenhuma obrigação para com a verdade). E quando algum milagre acontece, fui eu quem foi “levantado” por Deus para a façanha.

Guardamos mais zelosamente os vícios que o feitiço da Grande Meretriz colocou em nós, e qual herdamos dela, do que os exemplos em “obras, amor, fé e ministério, e sua paciência” nos demonstrada por séculos, e menosprezamos “os demais que estão em Tiatira e não têm a doutrina de Jezabel nem conheceram o que eles chamam ‘ciências ocultas’” . Embora pouco damos e quando damos o fazemos muito deficientemente, o fazemos como “A Igreja”, a única, a plenipotenciária, a perfeita e exclusiva, a soberana. Eles estabeleceram um Estado Político para manejar o mundo com a sua fé, suas obras e seu serviço. Os evangélicos tentam manipular as leis e os governos por canais menos visíveis, porém igualmente espúrios ao Evangelho.

É como enfiar a goela abaixo um remédio. Existem na nossa psique, deslumbrados pela chegada do Salvador Jesus Cristo às nossas vidas, um triunfalismo psicótico e uma convicção de vencedores utópica e incoerente, porque em vez de nos dedicar a vencer primeiro a nós mesmos e depois os nossos vícios, usamos ‘a mensagem’ salvadora e transformadora para apontar aos outros, e caso os vejamos insensíveis, apelamos às ameaças apocalípticas que provêm de uma hermenêutica errada e sentimentalista do texto sagrado. Cremo-nos muito capazes e providos das coisas celestiais e espirituais, que muitos de nós descuidamos as coisas temporais, tendo que mendigar, na hora da fome, e ainda acham que não devem agradecer porque é Deus cuidando deles, os filhos. Um conceito errado do dar e o receber.

Respeito ao Agradecer:

Conheço alguns religiosos que fazem questão de dizer “obrigado” a toda hora; saturam os diálogos e os relacionamentos de agradecimentos, como se os clichês pudessem superar a realidade.

Conheço também uma denominação no Brasil em que o visitante, pregador ou cantor que irá a ocupar o púlpito com um monte de engravatados atrás dele, na plataforma, para ficar bem e voltar a ser recebido ali deverá fazer uma lista de agradecimentos enaltecendo pessoas e suas obras. Os humildes agradecem tais manifestações; os orgulhosos premiam aos que assim se comportam.

Creio que quando Jesus falou dos dez leprosos a mensagem sobre o agradecimento se resume em: ‘Se estiver genuinamente agradecido, volte-se a Deus! Igrejas e líderes demandam que os beneficiados sigam ali congregados e ali ofertem como prova de estar agradecidos, mas Jesus pintou um quadro diferente do agradecido: Ele simplesmente renunciaria à sua raça, sua cultura e moralidade, louvaria a Deus e O adoraria visivelmente convertido de vez!

O verdadeiro servo de Deus não precisa observar e esperar visíveis agradecimentos senão vidas mudadas que se voltam a Deus de verdade e o seguem genuinamente. Aquele que aparentemente estando agradecido oferta avultadamente ou faz compromisso com um líder ou uma igreja pelos benefícios recebidos, nem sempre fora genuinamente convertido. O verdadeiro convertido se antes era “mão de vaca”, agora será permanentemente “mão aberta”; mas se antes era muito “mão aberta”, agora será prudente e sábio para ofertar corretamente no lugar certo onde realmente se faça a Obra de Deus para a Glória de Deus.

Quando um rico é salvo faz-se na sua cabeça um embrulho, pois, nalguns lhes ameaça a acusação de suas consciências como em Lucas 19. 8 aconteceu com Zaqueu, e outros são acometidos de tristeza como em Lucas 18. 22, 23. Ainda noutros casos, haverá ricos que acham na congregação dos santos a ocasião para se exibirem (Tg 2. 1-5).

Não saber RECEBER é um sério problema para o receptor; também para o dador e ademais, um caso de desperdício perante Deus. Saber receber na posição certa e com o coração corretor diante Deus, e para com os nossos semelhantes, nos faz doadores genuínos, eficazes e até de transcendência eterna. O saber receber se caracteriza pela humildade e o dar bem pelo amor.

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